SOBRE

Quando as pessoas sentem que estão sendo ouvidas, elas dizem coisas.
— RICHARD FORD

Ninguém mais aguenta dizer “está tudo bem”. Eu pelo menos não aguentava. E não sabia o que fazer com isso. Na superfície tudo estava “bem”, mas profundamente havia algo muito errado comigo.

Eu percebi o quanto pode nos custar não acessar nossos sentimentos. Não ouvir a si mesmo e os outros de forma sincera. Não falar consigo mesmo e com os outros de forma honesta.

Essa falta de verdade foi acumulando dentro de mim como se fosse um aterro. Ali juntavam-se lágrimas, tristezas, desentendimentos, protestos não feitos, gritos não expressados, coisas entaladas, “te amo”s não ditos e até celebrações não feitas. Tudo amontoado e trancado.

E não teve jeito. Coisas deixadas no escuro aumentam de tamanho e começam a ter vida própria. Precisei viver meses e meses de depressão, com consequências para todos a minha volta, para entender que é preciso se ver profundamente. E isso dá medo. Muito medo.

Precisava e queria me olhar e ouvir mais. Mas não sabia como.

Todos os afetos e todas as emoções têm uma razão de ser e um lugar para existir.
— J. LACAN

Dava medo porque eu me via sem alternativa. Como se olhasse para a minha “caixa de ferramentas” mental e não encontrasse nada que me ajudasse.

E quanto mais ventilava essas palavras aos amigos e conhecidos, mais eu ouvia medos ao meu redor que também tinham fome de alternativas. Alguns deles diziam:

"Não gosto do meu trabalho. Mas vou continuar porque a vida é difícil mesmo. E não tenho tempo pra refletir."

"Fazer o que se quer é pra poucos."

"Meu chefe é um babaca comigo. Mas vou aceitando porque não posso perder o emprego agora."

"Não consigo dormir, mas deve ser só uma fase."

"Sempre que me aparece uma ansiedade, eu tomo um remédio. E pronto! O médico disse que eu não preciso, mas é bom para relaxar."

"Quando preciso de ajuda converso horas com minhas amigas e amigos, mas parece que nada disso ajuda. O problema deve ser eu."

"Eu não estou bem. Mas respondo que está. Todo dia."

"Não falo nada. Quem vai se interessar pelo que eu vivo? Cada um tem que cuidar da própria vida não? No final é a gente com a gente mesmo."

"E se eu falar, vão me chamar de coitado. Não preciso de mais conselhos. Preciso de outra coisa e não sei o que é."

Existe um grito por socorro atrás de cada uma dessas frases. Consegue ver?

Nossas doenças são causadas por nossos segredos.
— C. JUNG

E o pior de tudo é que muitos de nós vamos caminhando assim. Baixando a cabeça ou estourando de vez em quando. Sendo bonzinhos ou babacas. E na verdade por trás de tudo existe um enorme cansaço desse jeito de viver. Parecemos viver de migalhas.

Tudo isso me fez pensar na ironia dos nossos tempos. Num mundo cada vez mais interligado, me parece que estamos nos sentindo mais sozinhos e distantes uns dos outros. Por incrível que pareça, temos um profundo anseio por mais conexão.

Eu acabei percebendo isso na minha vida. E decidi que não queria viver nessa miséria. Desejava uma vida mais rica que misturasse coragem para olhar para mim e consideração para com os outros. E não queria menos. Queria dizer e ouvir de forma mais sincera.

Essa fome de solução me fez procurar por alguma coisa. E por pessoas, momentos e coincidências pude encontrar, não um remédio, mas um caminho. Uma prática. Algo, que com o tempo, iria me fortalecer, me ajudar a me entender, me dar mais alternativas para compreender as pessoas a minha volta e, acima de tudo, tomar mais as rédeas da minha vida e ser mais independente emocionalmente.

Descobri uma arte há muito tempo esquecida e tive o prazer de encontrar (ou reencontrar). A arte da escuta.

Essa arte vem me preenchendo de vida. Me ajudando a trazer de volta o que havia perdido: a conexão comigo mesmo e com as pessoas a minha volta.

Ela nutre em mim uma alternativa curiosa para lidar com meus sentimentos e o que eles tem a me dizer. O mais fascinante: somente pela prática é que sua força se demonstra.

Entendi que havia sido tocado por algo que mais gente poderia ter acesso. Isso não deveria ser apenas para mim. A escuta pode e deve estar no “bolso” de cada um como uma habilidade ou um superpoder para atuar em sua própria vida.

Seria possível contar a minha jornada e por sorte beneficiar outras pessoas?

O projeto Na Escuta surge para tentar responder essa questão. Numa mistura de estudo e investigação, o projeto será um experimento humano que vai documentar a minha caminhada, e de outras pessoas, nesse terreno da escuta. Todos os conteúdos serão baseados em fatos reais de experiências próprias ou de outras pessoas com prévia autorização.

A prática é o pilar central. Se houver método, este é apenas um mapa. O território real me interessa mais. É onde a sensibilidade, vulnerabilidade e as verdades de cada um aparecerão. E a cada passo, podemos atualizar nossos mapas, o método em si, o processo.

No papel de aprendiz, compartilharei todas as minhas descobertas. Beberei de muitas fontes e mostrarei minhas práticas, livros, pesquisas, referências, entrevistas, rabiscos, demonstrações, inspirações, histórias e o que mais fizer sentido para expandir esse propósito.

Eu acredito que o que buscamos está muito próximo da gente e quer ser visto. Eu acredito que é possível se responsabilizar mais e cocriar realidades melhores para nossas vidas.

Pra começar precisamos ter coragem de aceitar que não está “tudo bem”.

Mas pode ficar.


SOBRE MIM

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Oi, meu nome é Emygdio Carvalho. Sou um criador de impacto.

Estranho, eu sei. Uma profissão meio diferente. Mas é assim que melhor defino a minha trajetória profissional e pessoal até esse momento.

Nos últimos 15 anos venho criando projetos e organizações com foco em transformação social.

Recentemente, após ter passado por momentos pessoais muito desafiadores, incluindo uma difícil depressão, me senti convocado a levar minha vocação por impacto para uma nova arena: dentro de mim mesmo e nas minhas relações. O Na Escuta é o resultado desse processo.

É um projeto sobre a coragem de escutar a si mesmo e as pessoas ao nosso redor.

Compartilhando práticas simples, vou documentar a minha jornada e de outras pessoas reaprendendo essa arte esquecida no tempo.

O Na Escuta quer inspirar milhares de pessoas a recuperar sua capacidade de ouvir o dito e o não dito. Para, com o tempo, conseguirmos construir a vida que queremos e regenerar as relações que mais nos importam.

Serei um aprendiz  caminhando por um território inóspito. Mesmo entendendo que escuta é algo que se aprende na prática, os conteúdos do projeto terão o objetivo de dar vislumbres dos mistérios desse caminhar como forma de inspiração.

Todo o aprendizado dessa jornada será compartilhado por meio de videos, áudios e textos. Serão escutas, entrevistas com praticantes, referências, livros, desenhos, fotos, rabiscos e tudo mais que fizer sentido.

Todo mundo tem o direito de ter essa habilidade "no bolso" como uma alternativa na busca pela conexão consigo mesmo, com os outros e, quem sabe, com o resto do mundo.

Que bom ter você por perto.


 
 
Escutar é um sair de si.
— Lacan
 

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