Ô de casa!

Venho de uma cidade do interior de São Paulo em que as casas nas ruas, na minha infância, ainda eram muito comuns. Casa. Portão. Rua. Não havia portaria, porteiro ou interfone com câmeras. O exterior e o interior eram separados por um portão.

Tinha uma coisa que avisava quem estava lá fora: a campainha. E ela sempre tocava lá em casa. Estávamos fazendo nossas coisas, e um sinal nos interrompia avisando que alguém queria nossa atenção.

Lembro bem da minha mãe olhando pela cortina tentando ver quem estava lá, sem colocar a cara para fora. Fui percebendo que, quase sempre, era uma ótima forma de ver mas não ser visto.

Com o tempo eu mesmo comecei a atender a campainha e usava esse jeito de olhar pela cortina, como minha mãe fazia. Às vezes, a pessoa lá fora também me via e me chamava com um “boa tarde, o senhor quer comprar frutas?”. Eu, assustado, já me escondia atrás da janela. Mas parece que tudo aquilo só fazia piorar.

A pessoa lá fora, querendo dizer algo, então começava a tocar cada vez mais a campainha, batia palmas, trocava de lado no portão, e até esquecia a campainha e começava a falar como se eu estivesse lá. A pessoa fazia de tudo para ser ouvida.

Depois de viver isso várias vezes, percebia que alguns, se ignorados, ficavam tão desesperançosos que simplesmente tocavam a campainha por obrigação e, depois de um tempo, iam embora. Aqueles muito persistentes, quando meus pais estavam em casa, eram recebidos com um “pois não” e logo recebiam um “hoje, não”.

E quantos “hoje, não” nós falávamos.

Até que um dia surgiu uma pessoa diferente.

Um sujeito, com uma bolsa grande ao lado do corpo, roupa amarela, boné azul e uma carta na mão. Ele teimava em aparecer muitas vezes quando minha mãe não estava. Eu, sozinho, não atendia a campainha, as palmas no portão ou gritos de “ô de casa”. Ficava ali, olhando pela cortina, ou simplesmente ignorava como se nada estivesse acontecendo até ele ir embora. Horas depois, a mesma pessoa voltava ainda de amarelo, e fazia tudo novamente. Eu também: fingia não ver. 

No mesmo dia, o sujeito voltava e voltava e voltava.

Resolvi entender esse mistério. Fiquei muito atento quando minha mãe voltou para casa e eu, em vez de ficar no quarto, escolhi prestar atenção se aquela pessoa voltava. E, como esperado, ele voltava.

Minha mãe tranquilamente saia pela porta, pegava a carta e agradecia. Não escondia atrás da cortina e não dizia “hoje, não”. A pessoa lá fora, sumia e não voltava mais. Exceto quando tinha outra carta para entregar.

— Mãe, quem é essa pessoa? O que ela faz?

— É o carteiro, filho. Ele entrega cartas, mensagens que alguém mandou.

— Ah. Ele voltou várias vezes, hoje. Por que ele volta?

— É o trabalho dele, filho. Ele tem uma mensagem que precisa ser entregue. Então, ele volta quantas vezes forem necessárias até fazer o que precisa ser feito.

Uma mensagem para você

Aí dentro de você existe essa cena. Aqui dentro de mim, também. Essa história é uma analogia potente sobre o papel dos sentimentos.

Olhar os sentimentos por esse prisma pode trazer alívio ao mesmo tempo que exige coragem. Para além de nos convidar a abrir a porta, temos que buscar a mensagem, lê-la e entender seu conteúdo.

Mas vamos por partes.

Receber os sentimentos não é tarefa fácil, requer treino e maturidade. E se você é como eu, parece que esconder atrás da cortina ou ao lado da janela não é mais uma opção viável de se viver, certo? 

Chegou a hora de crescer mais emocionalmente e ficar à vontade ao abrir a porta.

Na perspectiva que proponho, os sentimentos vieram te dizer o que é importante para você. Eles buscam ser recebidos porque, pelo contrário, como todos os bons mensageiros, retornam até entregarem a mensagem.

Eles são diversos, misteriosos e nos dão pistas sobre o significado de suas mensagens. São energias ágeis, automáticas, persistentes e super conscientes. Muitas vezes, o que chega a ser estranho, sabem mais sobre você do que você mesmo.

A língua que usam é o grande desafio. Se não tivermos o costume de receber essas mensagens, nunca ficaremos fluentes nesse idioma.

Uma mensagem criptografada

Quando alguém nos pergunta “E aí, tudo bem?” respondemos “tudo bem” ou se tivermos coragem “não, amigo, não estou bem” mas me parece que paramos por aí. Nos falta vocabulário para expressar o que nos move. Nos faltam palavras para saber ler a mensagem.

Uma vez li que o limite de nossa linguagem é o limite do nosso mundo. Nada mais verdadeiro também para o mundo dos sentimentos. Reflito constantemente sobre o repertório emocional que tenho para definir o que sinto. Há pouco tempo, esse meu mundo interno era definido por quatro ou cinco rótulos como triste, feliz, estressado, bem e, o que mais usava, “mais ou menos”.

Quando comecei a pedir e ganhar mais escuta, as pessoas me perguntavam se eu estava frustrado, abatido, desesperançoso ou relutante. Cada palavra dessa soava um gongo no meu peito e as que se alinhavam comigo naquele momento, davam nome a alguns sentimentos que pareciam estar esperando para serem batizados. Um alívio acontecia na hora e eu voltava para casa completamente mexido com essa experiência, até respirando mais fundo.

O vocabulário que usava para definir o que sentia até então, sem eu perceber, reduzia meu mundo. Meu interior estava pedindo por mais ar, espaço e diversidade. Era como se dar nome às coisas aumentava a minha forma.

Com essa nova consciência de espaço interno, então, veio uma vontade muito grande de discernir o que eu sentia. Começar a diferenciar tristeza, frustração ou abatimento, num momento difícil pra mim, me ajudava a me compreender mais. Era um caminho sem volta.

Isso funcionava na celebração de alguma conquista também. Nas escutas, as pessoas me perguntavam se eu estava me sentindo radiante, surpreso, tocado ou vivo. Isso me ajudou também a perceber que vários sentimentos de satisfação não tinham nome em mim, e logo não tinham espaço para existirem. Eu, na máximo, me sentia feliz.

Eu parecia viver numa miséria emocional. Mas quanto mais escuta, mais eu percebia minha diversidade e riqueza só pelo ato de nomear mais as minhas partes.

Esse exercício é muito poderoso. As coisas que não definimos, ficam de um tamanho desproporcional ou até imensurável e nos tomam de assalto. Quando são batizados, os sentimentos ganham contornos e limites. Eles existem mas não se transformam em mim. Toda vez que ganham reconhecimento de seus lugares eles me aliviam o peito. É algo quase inexplicável mas é assim que me sinto muitas vezes.

Novas palavras. Novos mundos.

Ter um repertório de sentimentos não é apenas um conjunto de palavras. É aceitar a diversidade que vive em nós e ampliar a consciência do que sentimos.

É claro que nem sempre é possível falar o que se sente, mas o desafio vale a pena. E quando preciso de ajuda para me entender mais, a escuta está sempre por perto para me ajudar. E até mesmo quando não consigo identificar o que sinto, pelo menos sei desse fato e tento mais uma vez mais tarde.

Hoje, encontrar nome para minhas alegrias e angústias faz toda a diferença, e assim vou vivendo com menos sentimentos perambulando sem abrigo dentro de mim.

Nesse mar de sentir, há quem diga que somos capazes de experimentar mais de 400 sentimentos diferentes. Imagina? É como se descobríssemos espécies diferentes dentro de nós, como se fôssemos um planeta inteiro para dentro.

Parece complexo. E é mesmo. Esse planeta com toda sua diversidade pode assustar no começo mas praticar a escuta de si e de outros, acredite, fará você se sentir menos alienígena de si mesmo.

Nesse novo mundo, se abra a possibilidade de ter um coração capaz de abrigar tudo o que é possível sentir.

Chegou a hora de abrir a porta, receber esses convites trazidos pelos mensageiros te convidando a viver de forma mais alinhada com o que você sente.

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Esse tema, como você deve ter percebido, merece atenção. É o que farei nos próximos textos contando mais detalhes sobre essa energia tão misteriosa.

Mas agora fiquei curioso para saber de você. Esse texto te tocou de alguma forma? Me conte, estou na escuta. Pode me escrever nos comentários, por e-mail ou pelo Instagram! Vou adorar saber!