Menos adulto. Mais humano. - Escuta 4

 

Relato abaixo uma escuta real (autorizada) no qual tento permanecer curioso e investigativo COM a pessoa sobre o que está vivo dentro DELA. Não é encorajar, analisar ou aconselhar. Em itálico, você encontrará os sentimentos e as respectivas necessidades a que eles tentam responder.


Fomos arrumando nossas câmeras e microfones. Eu arrumei minha cadeira e camiseta. Ela arrumou o cabelo e ajeitou a almofada atrás dela. Há alguns dias, ela já tinha me avisado que queria fazer um "recorte" na escuta. O foco seria a relação com o filho num evento recente.

Coloquei o timer em meu relógio. Dez minutos como sempre. E começamos.

— Ai ai. Meu filho não quer saber de mim.

Segurei qualquer reação minha porque queria deixar espaço para ela poder falar sobre aquele momento. E logo depois ela começou a descrever uma cena.

— Fui lá pra casa do pai dele. Peguei ele no domingo pela manhã e já convidei para ir a um templo budista comigo.

Ela olhava para baixo enquanto falava.

— Ele não queria ir. Estava cheio de graça e manha. Mas, no fim, ele foi porque ficar ali com o pai seria mais chato do que ir comigo. Então fomos.

Ela voltou a olhar pra mim e se ajeitou na cadeira. Parecia estar pronta para voltar no tempo e me contar sobre aquele momento como se estivesse lá com ela.

— Chegamos e fomos passear, ver os peixes e as tartarugas. Foi uma caminhada rapidinha. Depois, falei pra ele que queria fazer Tai Chi.

Já estava me mostrando um certo desconforto nessa hora.

— Ele começou a fazer comigo mas logo depois saiu e ficou esperando eu terminar. Assim que acabou ficou louco para ir embora.

Ela revirou os olhos e continuou.

— Filho, vamos fazer alguma coisa! Vamos passear? O dia está lindo. Ele não me ouviu. Fez questão de falar "vamos para o shopping, mãe".

Ela passou a mão no rosto com força.

— "Poxa, filho, o dia está lindo e você querendo ir ao shopping?". Emygdio, baita dia lindo e ele querendo ir nesse lugar?

Continuei indicando pra ela que estava ouvindo.

— "Shopping, não. E o SESC?"

Ela continuou como se estivesse lá com o filho.

— A gente foi para o SESC. Chegamos lá e tomamos um sorvete. Percebi que tinham duas oficinas. Fiquei animada mas ele não queria. Ele queria ir embora.

Ela olhou para baixo mais uma vez.

— Começou a falar que queria ir pra casa da avó. Ele é tão caseiro. Já eu...gosto tanto de ir para a rua. E ele gosta de ficar em casa. Eu não entendo.

Ela estava bem mexida com aquilo tudo, e balançava a cabeça de um lado para o outro.

— Bom, deixei ele na casa da avó e fui fazer minhas coisas. Ele não quis ficar comigo.

Ela ficou alguns segundos em silêncio e parecia ter saído daquela cena. Voltou a falar.

— Eu falo pra ele, Emygdio. "Me dá uma chance, filho." Sabe, uma vez ele...Nós fomos para uma viagem de 14 dias de carro. Ele não queria ir. Mas depois, quando ele estava lá, ele gostou. Falo pra ele "tá vendo, você não queria vir, mas agora gostou".

Ela estava respirando mais fundo e, sorrindo, contou essa parte pra mim.

— E isso já aconteceu várias vezes. Depois de estar num lugar, ele me abraça e agradece por estarmos ali. É espontâneo. Acho tão bonitinho.

Ela voltou a fechar o rosto.

— Sempre reforço. "Tá vendo, me dá uma chance que no fundo você vai gostar." Mas dessa vez ele nem me deu essa chance.

Eu quis checar com ela se os sentimentos e necessidades que ouvia faziam sentido pra ela.

— Você fica confusa com a falta de clareza sobre as preferências dele?

— Não. - E protestou. - Eu fico frustrada porque queria mais reconhecimento por estar trazendo algo de valor para você. E você não enxerga? - era como se ela estivesse falando com ele.

Ela estava respirando mais rápido. Continuei.

— A frustração é grande porque seria bom ter mais reconhecimento por estar fazendo algo?

— Não é reconhecimento comigo. Queria que fosse mais fácil lidar com ele. Aceitação também. Queria que ele aceitasse o que proponho.

Ela então dá um respiro mais longo. E depois outro. Ter falado "aceitação" mexeu com ela.

— Quero que seja do meu jeito. - ela continuou olhando para baixo, como se estivesse se vendo num reflexo - Eu fico frustrada quando não é do meu jeito.

Nessa hora, ela me pega de surpresa e ri. Dá uma gargalhada divertida. Eu não me aguento e dou uma risada também. Foi um cavalo de pau na escuta.

— Eu fico frustrada quando não é do meu jeito. É o que estou escutando de mim. É o que estou me ouvindo dizer agora.

Ela praticamente estava falando com ela mesma.

— Fico frustrada quando não é do meu jeito. As escolhas dele…. Eu julgo MUITO as escolhas dele.

Ela parecia ter visto alguma coisa e entrou em silêncio. Depois de alguns longos segundos, eu quis checar com ela.

— Seria bom ter mais clareza sobre as preferências dele? E seria bom compartilhar de algumas delas?

— Eu nem pensei nas preferências dele. Pensei que é tão óbvio que aquilo era bom pra ele que nem investiguei possibilidades. É tão óbvio que nem quis saber o que ele queria. Pensando aqui, eu chego até a perguntar mas, dentro de mim, não tem pergunta de verdade.

Respirei um pouco. Aguardei. E me veio mais uma hipótese do que tinha ouvido.
— Você fica surpresa com a escolha que você faz nesses momentos? Parece que você quer diversão, criatividade e ar livre. Mas também quer companhia para aproveitar isso?

— Sim. Mas eu não pensei sobre o que ele estava querendo. Ou do que ele queria, como você fala, "cuidar" quando ele falou de ir ao shopping. É difícil. Eu quero dar opções pra ele. Que ele tenha mais cultura. Que faça bem pra ele. O tempo todo penso nisso.

Agora, ela voltou a me olhar na câmera e estava com a voz mais imponente.

— Parece que, no final, tenho a mesma idade dele. Faço uma competição com ele. Somos duas crianças, né?

E depois, transformou a pergunta para si em afirmação.

— Somos duas crianças. Me sinto tão ridícula agora.

Eu deixei um espaço e depois tentei fazer um resumo.

— Você se dá conta de coisas importantes pra você como empatia e cuidado? Mas quando vai agir, fica descontente por estar fazendo algo em que não acredita?

— Sim.

Parou um pouco e continuou.

— Mas estou tão no automático que quando ele fala a palavra "shopping" eu já sou direta e falo "Ah, não. Olha o sol lá fora." Nossa, que louca.

Parou mais uma vez por um tempo. Depois retomou decidida.
— Minha vontade agora, já pensando em como melhorar isso, é fortalecer a presença e não ser tão espontânea.

Refletiu um pouco e falou.
— Mas pensando bem eu adoro minha espontaneidade. Ai! Como ser espontânea, cuidadosa e presente? Não sei.

Eu estava com a atenção um pouco comprometida porque já estava celebrando aquela escuta dentro de mim. Ela estava me ensinando tanto. Mas voltei a ficar presente.
— No momento em que você se vê querendo cuidar de duas coisas importantes pra você como empatia e espontaneidade, você fica pensativa e reflexiva tentando enxergar caminhos?

— Sim.

Continuou em silêncio por um tempo. Parecia que agora ela estava convivendo com o que havia encontrado. De qualquer forma, olhei para o relógio e o tempo estava quase esgotado.

— Parece que a minha espontaneidade está morando dentro de uma criança em mim. Eu me sinto ridícula porque é meu lado criança. Mas tem um lado bonito nisso também. No final, a gente é igual e humano.

Continuei ouvindo. Uma coisa estava muito viva em mim. A honra de estar ali com ela.
— Se eu deixar essa minha criança livre, posso deixar de ser um adulto "dono da razão". Assim, meu filho pode sentir que tem mais poder. Que pode ter coragem de dizer o que quer e sente. Para ele ser...espontâneo.

FIM DA ESCUTA


Como foi pra mim?

O que escutei em mim fazendo essa escuta?

Lendo essa escuta fiquei com vontade de respirar fundo algumas vezes. São muitos os desdobramentos em mim. O achado dela no final me provocou a ver a humanidade compartilhada entre ela e o filho e, no fundo, me perguntar: existe diferença entre eles para além das idades e papéis sociais? O que está por trás do que escutei ali?

Pedidos escondidos

O tema central dessa escuta para mim foi a presença constante de pedidos que fazemos uns aos outros sem realmente pedir ou saber do que precisamos.

Parece que a todo momento estamos pedindo coisas pra cuidar do que é importante para nós. E mesmo sem consciência vamos criando pequenas amarras nas relações. Nessa escuta é a relação filho e mãe, mas pode ser em qualquer relação.

Não sei você, mas eu consigo ver no meu passado recente os "pedidos" escondidos que fico fazendo para as pessoas a minha volta, sem consciência do que realmente quero.

São pedidos embalados em sentimentos de irritação, angústia, tristeza, euforia ou até em sorrisos e celebrações. É uma confusão cotidiana. Mas venho percebendo que não precisa ser assim.

A escuta é, para mim, uma ferramenta poderosa nesse sentido.

Essa prática está presente na minha vida por me ajudar a entender o que está acontecendo dentro de mim. E com a ajuda de alguém, escutar o que está sendo dito para além das palavras.

Como na escuta com a mãe, o templo e o SESC representavam estratégias para responder a uma vontade mais profunda de liberdade e criatividade. E a irritação indicava a intensidade do que ela tanto queria.

Assim, para mim, vai ficando mais claro o papel das emoções. Elas são reações automáticas às coisas que são importantes para um indivíduo, como alertas do corpo para algo que está acontecendo mas ainda sem consciência. Com o tempo e a prática, as emoções vão se tornando aliadas e não coisas estranhas e animalescas que precisam ser reprimidas.

Ainda sobre a escuta transcrita, é claro que a irritação pode pegar a mãe desprevenida. Ela já está com uma ação em mente pra cuidar da vontade de criatividade, por exemplo. E quando essa ação recebe um "não", o sentimento aparece. Nada mais natural para uma necessidade que está buscando ser satisfeita há um tempo. Sua "voz" começa a ficar mais alta pra chamar atenção.

Se não tenho clareza das necessidades que minhas emoções me indicam, sou capaz facilmente de confundir desejo e ação.

Hipoteticamente, se quero um carro e me dou conta de que não tenho dinheiro para comprá-lo, minha frustração pode ir ao teto. Se me escuto profundamente, me dando um pouco de tempo e espaço, posso descobrir que desejo, na verdade, por exemplo, autonomia e liberdade.

Dessa forma, uma janela se abre. Se sei do que estou precisando mais profundamente, posso ser mais criativo para pensar em alternativas de ações, e talvez pegar uma carona pra praia, sair pra andar na rua ou até me dar um dia pra relaxar. Só a pessoa em questão pode saber o que suas ações estão tentando cuidar.

Vale o exercício. Imagine um acontecimento que te tirou do sério recentemente e tente compreender qual necessidade você estava tentando satisfazer. Que ação tomou? Quais foram os sentimentos presentes? Qual era seu desejo mais profundo ali? Atenção? Cuidado? Pertencimento?

Tente. Coisas muito interessantes podem aparecer. Vai lá. O texto estará aqui quando você voltar.

Relações e desejos

A experiência que transcrevi também me alertou para a forma automática com que algumas relações vão se costurando. Parece que os outros acabam sendo "obrigados" a satisfazer nossos desejos, não? Penso em mim e em minhas experiências.

O maior sintoma é quando fico irritado COM alguém. Acabo achando que meu estado emocional é causado pelo outro. Quando na verdade me parece mais responsável, empoderador e saudável perceber que o que me irrita é a minha necessidade não atendida.

O outro, sem dúvida, pode ter contribuído de alguma forma para que eu visse aquilo, mas o sentimento é de responsabilidade de quem sente, ou seja, eu.

Sugestão: comece a usar o "eu sinto porque preciso (ou valorizo)". Venho usando isso na minha vida, e a meu ver, essa é uma chave potente e libertadora.

Por mais que as minhas relações sejam incríveis fontes para enriquecer a minha vida em inúmeras formas, é prudente entender que nem sempre terei minhas necessidades atendidas por uma ÚNICA fonte, ou nesse caso, uma pessoa.

Se, por exemplo, preciso de cuidado, e uma pessoa específica não está disponível, posso entender que ela não tem o que me dar naquele momento.

Sentimentos de frustração ou tristeza podem aparecer. Agora, diferente de antes, posso me responsabilizar por isso e perceber que está em minhas mãos ter mais fontes de cuidado na minha vida. Vou me libertando e libertando a outra pessoa.

Essa prática é, com certeza, desafiadora. A programação é antiga e começou com "papai, vai ficar bravo se você não...", "A mamãe vai ficar brava se você não...". Somos, desde pequenos, bombardeados por sinais de que somos responsáveis por sentimentos e necessidades alheios.

Eu venho experimentando a dificuldade de quebrar essa "sina". Mas com prática de escuta e apoio, esses momentos de clareza vem brotando cada vez mais pra mim.

No início pode ser assustador acordar para a realidade de que, para várias de nossas necessidades, temos pouquíssimas estratégias. Ao mesmo tempo, essa consciência é o começo de um caminho de mais opções, de uma vida mais rica em possibilidades e relações mais dinâmicas, leves e vivas.

Passa pela minha cabeça um sonho de um grito coletivo de independência emocional. Em que convido as pessoas a minha volta a enriquecer a minha vida SE elas tem o que me dar. Se quiserem e puderem contribuir. Sem obrigação, culpa ou vergonha.

O desejo que te habita

No fundo, aprendendo a cada escuta, que todos estamos pedindo algo, e estamos sedentos por conexão e uma vida mais repleta de oportunidades para realizar nossas vontades mais profundas.

E se você está pensando que isso é impossível, eu te entendo. Eu pensava assim também. Até o momento que precisei buscar uma nova alternativa e comecei a pensar: mereço menos?

Te convido a não confundir falta de visão de opções como um recado do mundo de que você tem que desejar menos.

Te convido a não abrir mão do que você deseja.

Entendendo o desejo como a coisa mais incrível que te habita, o desafio fica mais saudável. E novas perguntas podem aparecer.

Que tipo de ações você precisa para satisfazer essa necessidade que encontrou? Vai deixá-la escondida? Será que você já consegue traduzi-la em um pedido claro? Será que está precisando de apoio para isso?

Quando esqueço disso tudo e fico confuso, eu peço uma escuta. Ela me ajuda a lembrar da inteligência dos meus sentimentos, da força do meu desejo, e restaura a minha esperança de que a vida que quero pode estar a distância de um pedido.


Como foi pra você?

Como se sentiu lendo essa escuta? Te nutriu em algo que você valoriza ou vem buscando? Acha que contribuiu para desenvolver sua habilidade de escuta? Você ouviu algo que não ouvi? Fique à vontade para escrever nos comentários.


O Na Escuta é um experimento humano na busca pela conexão perdida. Treinaremos uma arte esquecida que pode ser tão fundamental nos tempos atuais: a escuta.

Como um aprendiz dessa arte, documentarei em diversos formatos a minha jornada e de outras pessoas por esse caminho.

Meu sonho com esse projeto é dar acesso, a cada vez mais gente, à prática de escuta.

Acredito que todo mundo nasceu com essa capacidade. Só falta treino.

As escutas consistem em práticas de 10 minutos nos quais fazemos algo simples: escutar, por trás das palavras, quais são os sentimentos e anseios presentes ali. É isso que chamo de ouvir de verdade.

Lembre-se, a escuta é algo que se aprende fazendo. Todos os conteúdos do Na Escuta tem o objetivo de engajar e dar um gosto dos mistérios desse caminhar.