Eu tinha que contar para ela - Escuta 2

 

Relato abaixo um experimento real de escuta (autorizada) no qual tento permanecer curioso e investigativo COM a pessoa sobre o que está vivo dentro DELA. Não é encorajar, analisar ou aconselhar. Em itálico, você encontrará os sentimentos e as respectivas necessidades a que eles tentam responder.


Ele chegou no café e logo foi sentando dizendo um "oi" alegre com um sorriso no rosto. Começamos falando sobre o projeto do Na Escuta e o quanto ele estava animado e interessado em participar.

Era uma manhã muito fria. Pedimos um café.

Antes de nos encontrarmos ao vivo, ele já tinha me dito, de uma forma mais branda, um pouco sobre o tema que iria compartilhar comigo.

Pra ser sincero, eu estava com um certo frio na barriga sem saber o porquê. Pensei rapidamente que a escuta, por ser ao vivo, estava trazendo novos elementos a serem ouvidos. O nervosismo, o falar mais baixo por estarmos na presença de outras pessoas e aquela pequena ansiedade de parar a conversa assim que o atendente trouxesse o café.

Respirei e voltei a ficar mais presente.

Sugeri que começássemos e aproveitássemos o pouco tempo que ele tinha. Lembrei que o exercício de escuta não tem a ver com aconselhar, encorajar ou analisar. Tem a ver com sermos curiosos sobre o que está vivo dentro da gente. E encontrar por trás dos sentimentos, aquilo que a pessoa mais valoriza, precisa ou busca. E partir disso, ver o que acontece.

- Vamos começar?

- Vamos lá. - ele já foi mudando um pouco de postura, olhando mais para a mesa do que pra mim.

Eu imaginei que não seria fácil para ele, mas ao mesmo tempo me enchia de coragem ver a coragem dele naquele momento.

Ele começou.

- Sabe o que é cara? É bem complicado falar disso. Como homem, sabe? Vem sendo um processo. Mas olhando agora com um pouco de distância fica mais fácil. Estava e estou bem cansado.

Ele parou e deu um suspiro.

Já eu estava dando o espaço de silêncio necessário para ele falar. Interromper pode ser a pior coisa a fazer mesmo quando a curiosidade bate forte. E foi só esperar um pouco. É bem parecido com aquele momento que, antes de mergulhar na piscina, inspiramos e prendemos a respiração.

Então, ele mergulhou:

- Perdi completamente a libido, cara. Estava sem vontade de fazer nada com a minha namorada. Sem tesão nenhum. No começo achei que era pelo tempo de relação sabe? Estamos juntos há um bom tempo. E fiquei imaginando que a relação tinha esfriado. Não sabia dizer o que era.

Com as mãos no ar, gesticulava essa dúvida.

- O que me veio em mente era a vontade de falar com ela. Mas e a coragem pra isso? Nenhuma.

Cabisbaixo, continuou.

- Mas eu queria contar para ela essa história toda. Como forma de respeito, sabe? Porque eu já estava imaginando: será que ela acha que é com ela? Será que ela também está com vergonha de falar comigo?

Naquele momento, já busquei resumir o que eu estava ouvindo, buscando encontrar sentimentos e o que parecia ser importante pra ele:

- Você queria perguntar pra ela como ela estava se sentindo? Por que parece que proximidade, transparência e honestidade são coisas muito importantes você?

- Sem dúvida. Ainda mais com ela. Cara, mas como é que eu ia falar disso?

- Além disso, seria bom ter mais clareza de quais ações tomar?

- É.

Nesse momento, o café foi colocado na mesa. Estava bem quente. Aproveitei para pegar a xícara e esquentar a minha mão gelada enquanto continuava a ouvi-lo. Aquilo pareceu ter aumentado a minha presença.

Ele me contou que, em paralelo, foi ao médico para fazer exames e ver se seus níveis hormonais estavam bem. E o que ele mais temia aconteceu: tudo estava fisicamente normal. Ele precisava olhar para si mesmo. E estar ali comigo mostrava bastante o nível de persistência que ele tinha de procurar várias formas de se ouvir e entender o que estava acontecendo.

Continuamos:

- Eu me sentia em stand-by. Pausado. Ou desligado. Continuei buscando ajuda e fui parar numa psicóloga. Estava precisando mesmo. E sentado lá durante a sessão eu fui falando e falando e falando, mas nada de falar o que era importante. Fui me arrastando na fala e não assumia o que estava acontecendo comigo. Nem para a psicóloga! Resolvi pelo menos expressar de que havia algo que não conseguia dizer.

- Naquele momento você se deu conta que assumir que não conseguia falar era a melhor forma de começar a dizer algo? E ter mais condições de manter a coragem e transparência que são tão importantes pra você? E essa aceitação abriu espaço para mais verdade?

- Sim. Foi bem isso.

Tomou um pouco do café. Parecia que tínhamos colocado uma lupa em algo bem importante pra ele. Então, continuou:

- Daí foi. Consegui falar no finalzinho da sessão, mas foi.

Mesmo demonstrando um alívio, ele continuava preocupado enquanto contava a história.

- Depois da sessão, a imagem da minha namorada vinha para mim de um jeito muito forte. Não era justo com ela.

- Você estava inseguro porque gostaria de ter mais clareza no impacto que aquilo tudo ia ter na harmonia da relação de vocês?

- Sim. É importante falar a verdade. Por mais difícil que seja. Mas saber disso é diferente de fazer. Muito diferente.

Ele tomou mais um gole do café. Agora, um café gelado imaginei. E o meu café? Tinha esquecido dele. Um café gelado também. Dei um gole rápido.

- Resolvi falar para ela.

Percebi a ironia daquele frio na barriga compartilhado pelo café e pela história.

- Bom, daí um dia à noite, eu e ela estávamos no banheiro. Comecei a tomar banho enquanto ela escovava os dentes.

Naquele instante, imaginei o box ficando embaçado enquanto ele ganhava coragem de dizer o que precisava ser dito para se manter coerente com o que ele acreditava:

- De repente falei "Amor, você deve estar percebendo uma coisa. Quero te dizer. Estou bem desligado e sem tesão. Só queria que você soubesse que não tem a ver com você. Fiquei bem preocupado e estou buscando ajuda pra ver o que é." - parecia aliviado e seguro em contar sobre esse momento.

- Você se sentiu corajoso?

- Sim.

Tinha um olhar de celebração nele. E contar sobre aquilo parecia reforçar um senso de confiança que agora reconhecia com mais vivacidade.

- Mas falei de costas, cara! - ele abriu um sorriso. Parecia que naquele momento estava se abraçando e comemorando essa coragem. Não uma coragem absoluta. Mas a necessária para dar aquele passo.

Fiz um outro chute:

- Poxa, então você além de corajoso se sentiu vulnerável e, praticamente, nu? - a gente deu risada. Ele nem precisava falar se eu tinha acertado ou não. De forma figurada, nudez sem dúvida era um sentimento que agora faria parte do nosso repertório.

O tempo do exercício tinha acabado. Ele aproveitou e emendou:

- Poxa, foi bom falar disso. É bom nomear as coisas. Mesmo sabendo que isso não coloca um fim saca?

- Sei. O que venho experimentando na escuta é assim: vamos nomeando as coisas que vemos no caminho. Como se fosse um mapa. As coisas vão ganhando mais cor.

- É. Dá vontade de trazer mais cores para a vida. Dá vontade de recolorir os lugares.

Eu fiquei imediatamente grato por aquelas palavras. Recolorir era algo que não ouvia há muito tempo. Agradeci:

- Valeu pela confiança.

- Nossa. Sim. Valeu. Que alívio ser ouvido de verdade. É bem genuíno né? Isso faz falta. Vamos fazer de novo depois?

- Claro!

Levantamos. Pagamos a conta. Nos demos um abraço de agradecimento e fomos embora com mais coragem, honestidade e cores.

FIM DA ESCUTA


Como foi pra mim?

O que escutei em mim fazendo essa escuta?

Durante toda a escuta eu estava extremamente curioso. Queria saber diversos detalhes e principalmente o desfecho. "O que será que ela disse para ele?" era a pergunta que mais aparecia na minha cabeça depois.

Relaxei mais quando pensei no foco da fala dele. O que me disse deu pistas de que as coisas estavam em harmonia entre os dois. Mas ainda existia um espanto dentro dele mesmo. E por isso ele precisava falar, ser escutado e se escutar.

Como ainda parte do experimento percebi uma coisa ainda mais curiosa. Como é possível criar uma conexão tão grande com alguém com tão pouco contexto?

Esse exercício me surpreendeu nesse sentido. A busca por sentimentos e anseios cria algo mais profundo do que os detalhes de uma história podem gerar. Me pergunto: quanto contexto preciso para entender o momento de uma pessoa? Quanto contexto preciso para me entender? Detalhes podem ser distrações às vezes.

Um outro aprendizado pra mim. O que no início parecia uma escuta difícil e com sentimentos de insatisfação acabou mostrando um processo de reconhecimento de coragem e transparência.

Isso me tocou muito. Aprendi com ele que o compartilhamento de algo doído pode esconder, na verdade, uma celebração. E somente descobriremos caminhando por essa trilha interna.

Isso me enche de coragem para acessar momentos pessoais difíceis. Será que posso confiar que ali existem também celebrações? Acho que sim.

Venho aprendendo que toda vez que reconhecemos a existência de algo valoroso, contribuímos para que aquele valor seja nutrido em nós e no mundo.

Sem contar que ainda fica vivo em mim o quanto ele confiou naquele espaço para trazer algo difícil à frente. Compartilhar temas como sexualidade, masculinidade e sensibilidade não é nada trivial. Em quem podemos confiar pra falar dessas coisas?

Ele confiou num "estranho".

Que coisa mais estranha!

Sempre acreditei que somente podemos nos abrir para conhecidos. O que ele fez ali foi expandir os contornos desse limite. Uma enorme provocação.

Nessa e em outras escutas venho experimentando a beleza escondida por trás dos "desconhecidos". A liberdade de sermos mais nós mesmos quando estamos na presença de alguém que não nos conhece. Parece que o peso dos rótulos vai embora e somos mais humanos. Reconhecemos nossa estranheza e nossa humanidade. Nem que seja por alguns minutos. Na prática, não na teoria.

Percebo que o espaço vai ficando cada vez mais livre. No exercício, sem encorajar, aconselhar ou analisar, naquele instante uma sustentação acontece. Como um "pode pular, você não vai se machucar. Não aqui. Não agora. Se precisar a gente mergulha juntos e volta antes que o ar acabe".

O maior indicativo do poder dessa sustentação foi o crescimento da energia na conversa. Cada sentimento reconhecido reforçava o trunfo do próximo a ser descoberto. Eu e ele estávamos conectados no que queria aparecer.

Esse experimento alimentou muito o significado desse projeto pra mim. A gente nunca sabe o que pode aparecer numa escuta. E o risco vale a pena.

Tudo isso me traz muita esperança de que conexões são possíveis quando tratadas como algo precioso e que precisa ser cultivado. E pode acontecer em qualquer lugar, mesmo ali, num cafezinho.

Uma última coisa.

Lendo e relendo esse experimento, eu ainda fico atento ao colorir e recolorir citados por ele no fim, tentando entender como isso me impacta.

Ainda não sei.

Talvez precise de escuta pra isso.


Como foi pra você?

Como se sentiu lendo esse experimento? Te nutriu em algo que você valoriza ou vem buscando? Acha também que contribuiu para desenvolver mais sua habilidade de escuta? Você ouviu algo que não ouvi? Vou adorar saber nos comentários.