Eles não sabem quem eu sou - Escuta 1

 

Relato abaixo um experimento real de escuta (autorizada) no qual tento permanecer curioso e investigativo COM a pessoa sobre o que está vivo dentro DELA. Não é encorajar, analisar ou aconselhar. Em itálico, você encontrará os sentimentos e as respectivas necessidades a que eles tentam responder como um jeito mais organizado de ouvir. Em alguns momentos, também compartilho o que estava acontecendo dentro de mim durante a escuta.


Eu liguei meu computador, preparei a câmera e aguardei. Ela estava um pouco atrasada. Seria a nossa segunda escuta depois de uma semana.

Já tínhamos conversado antes e podia perceber que ela estava passando por um momento muito importante de auto reflexão. Ela sentia que seu trabalho não a satisfazia e começava a avaliar toda a sua vida até ali. Estava se redescobrindo.

O computador fez um pequeno barulho e ela estava do outro lado da tela. Bem cansada parecia não estar muito disposta a fazer o exercício comigo. Mas foi só uma impressão minha.

Como em toda escuta, fui apresentando as regras do exercício. Disse sobre o tempo de dez minutos, e que não estava ali para expressar meu ponto de vista, nem encorajá-la, dar conselhos ou analisá-la.

Depois que concordamos com um “sim”, demos um sorriso curioso e começamos o exercício.

— Oi, como você está? — eu nunca me aguento e abro um sorriso como se fosse um código secreto de alguma coisa subversiva. Sabemos que a pergunta é corriqueira mas o exercício não. Ela sorri também mas logo depois seu rosto se fecha.

— Está tudo muito difícil na real. Meu trabalho realmente não está fazendo sentido. Olho as pessoas, as reuniões, o escritório. Não gosto de nada dali.

Naquele momento, a fala dela dá uma guinada em outro sentido e vamos para um território diferente dentro dela.

— Ao mesmo tempo, num exercício recente da minha terapia tive que perguntar para as pessoas mais próximas sobre quais eram as percepções que elas tinham sobre mim.

A voz dela aumentou de volume:

— E meu Deus! Estou ouvindo cada coisa. Sempre me coloquei à disposição dos outros, sempre fiquei preocupada com minha família se desentender, sabe? E nesses dias estou ouvindo mais o que eles pensam de mim. Dizem que sou controladora e muito crítica. Que me cobro demais. Nossa.

Ela suspira fundo, fica um instante em silêncio e retoma:

— Estou muito cansada. São muitas coisas ao mesmo tempo. Investi muita energia em manter tudo no lugar, tudo certo, tudo bonito. E agora as pessoas nem reconhecem meu esforço.

Entramos num momento de silêncio. Ali na minha cabeça imagens e sentimentos apareciam meio sem controle. Estava vendo uma menina “boazinha” que queria cuidar de todo mundo e começou a perceber que aquelas estratégias para buscar validação não estavam funcionando. Era como se ela estivesse num canto. Sem saída. Ela me parecia desesperada e, como ela mesmo disse, cansada. Fiquei imaginando a quantidade de revelações em tão pouco tempo. Pode ser muito difícil se sentir sendo aberto de dentro pra fora.

Queria logo voltar a estar presente e escutá-la mas uma vontade grande de acolhê-la estava também presente em mim. Mesmo assim, deixei um pouco de lado tudo isso e fiz um chute:

— Você precisa de mais lentidão nesse processo para se sentir menos desesperada e cansada? Para se…

Imediatamente ela me interrompe e desabafa:

— Na verdade eu quero exatamente o contrário, Emygdio. Quero que tudo seja mais rápido. Não quero lentidão. Quero velocidade. Não quero ficar nesse lugar.

Nesse momento, os olhos dela se enchem de lágrimas. Pude sentir o desespero de forma muito real mesmo tendo tão pouco contexto do que ela estava me falando. Eu não consegui evitar e me emocionei também.

Ela respira e continua:

— Tudo está sendo assustador para mim. Meus amigos, e as pessoas mais próximas, enxergam minhas ações como as de uma menina medrosa e solícita demais. Percebi que estava sendo julgada e vista como alguém que tinha outras intenções, sabe? Isso é horrível. Tive que ouvir que não me mostro. Que tenho medo.

Retomo minha atenção e tento resumir o que ela havia me dito, tentando me manter no exercício:

— Pode ser duro se dar conta de que seus comportamentos que buscavam nutrir valores importantes para você, na verdade, foram vistos por outras pessoas de forma diferente? Seria bom ter mais clareza de como as pessoas recebem suas ações?

— Isso.

— Seria bom também poder revelar e nomear de antemão, de alguma forma, suas intenções? Mas parece que você fica perdida e assustada por precisar encontrar alternativas para fazer isso desse novo jeito?

— É. Queria saber como.

Continuei tentando traduzir aquele momento dela:

— Você ao mesmo tempo se sente exausta por essa jornada até aqui e seria importante agora contar com mais apoio e companhia e não se sentir tão sozinha?

— Sim. Mas fico bem perdida quando vejo que as pessoas às quais estou acostumada a pedir apoio são as mesmas que, agora, parecem não me conhecer ou até desconfiar de mim. Elas não me entendem profundamente, não sabem do que eu preciso e o que estou tentando fazer.

Ela respira fundo. Parece ter aceitado algo difícil de aceitar, mas continuou, para minha surpresa, com um ar de confiança:

— Para começar eu vou ter que saber do que preciso. Não adianta continuar fazendo coisas para que os outros me vejam de uma certa maneira. Aliás, pelo visto, isso não vem funcionando, não é mesmo? Só estou me cansando desse jeito.

O relógio faz um barulho mostrando que o tempo da escuta havia acabado.

Logo depois de avisá-la pude ouvir um suspiro com um “tá bem”.

Naquele momento não consegui evitar a curiosidade e a preocupação e disse:

— Como foi essa escuta pra você? Quer mais um tempo?

Ainda estava mexido com o que tinha escutado. Arrisquei essa oferta de mais tempo de escuta. Mas não era do que ela precisava.

— Foi bom. Gostei bastante. Mas parece que quanto mais falo, mais borbulha algo dentro de mim, sabe? E estou cansada.

Naquele momento, pude fazer uma oferta mais alinhada com o que tinha acabado de ouvir.

— Seria bom ficar em silêncio agora? E se recolher para descansar e dormir?

— Sim, é o que preciso agora.

Desejei um bom descanso para ela. Com um sorriso realmente cansado me respondeu com um “boa noite”.

FIM DA ESCUTA


Como foi pra mim?

O que escutei em mim fazendo essa escuta?

O exercício de escuta e suas regras sugeridas são tão interessantes pra mim. O formato de pergunta dá um espaço interessante para o outro poder se investigar e reduz a pressão que uma afirmação pode ter. A pergunta sempre é uma benção.

Toda a escuta me desafiou bastante. Foi difícil manter a conexão com ela enquanto, dentro de mim, vinham vontades de dizer “calma”, dar algum tipo de conselho ou até mesmo traçar paralelos com a minha vida.

Voltar a estar presente mesmo com todo esse barulho interno parece ser a parte mais difícil do exercício.

Assim que chutei coisas que não estavam alinhadas com o que ela estava sentindo, imediatamente ela me disse o sentimento ou algo que ela valorizava mais. Parece que mesmo errando, na escuta, a gente acerta.

Depois pude refletir um pouco mais sobre aquele momento e seu paralelo com inúmeras interações que tenho diariamente. Se eu não estivesse ali praticando com ela um novo jeito de conversar e ouvir, eu com certeza teria oferecido, em trinta segundos de conversa, “calma” e “colo”. Teria a encorajado. Fiquei muito surpreso com a resposta que ela me deu e ainda mais de entender que não era daquilo que ela precisava.

Minha reação automática em lugares fora dali seria encorajar, ou acolher dizendo aquelas palavras como “paciência.

Refleti ainda mais sobre a importância de ouvir o que estava vivo ali. Por mais que minha intenção fosse bonita e genuína, não era o que mais cuidaria dela naquele momento.

Pensei. Em quantos momentos recebi um “calma, meu querido” quando não precisava, ou um “você precisa de paciência nessas horas”. E quantas vezes ofereci “calma” quando não era daquilo que alguém precisava? Simplesmente, não consegui contar o sem número de vezes.

Agora, com ela, também pude aprender que às vezes o que precisamos mesmo é de apoio e alternativas. E que sustentar o espaço de escuta pode ajudar a chegar, com mais velocidade, às necessidades reais por trás de tudo que foi dito.

A urgência contida nesse pedido de apoio, vem com a pergunta: o que eu quero? Que por sua vez, leva à outra: quem eu sou? Para isso, me parece, que a gente precisa de ainda mais apoio.

Mas a gente vai caminhando.

Uma escuta de cada vez.


Como foi pra você?

Como se sentiu lendo esse texto? Te nutriu em algo que você valoriza ou vem buscando? Acha também que contribuiu para desenvolver mais sua habilidade de escuta? Você ouviu algo que não ouvi? Vou adorar saber nos comentários.


Na Escuta: um experimento humano na busca pela conexão perdida dentro de nós e entre nós. Um projeto para inspirar milhares de pessoas a desenvolver suas habilidades de escuta. Reaprendendo essa arte esquecida no tempo. Lembre-se! A escuta é algo que se aprende fazendo. Todos os conteúdos têm o objetivo de dar um gosto dos mistérios desse caminhar.

Emygdio Carvalho, como aprendiz dessa arte, vai documentar e compartilhar a jornada por esse território inóspito.

Você acompanha mais dessa jornada no site naescuta.org