Eu deveria ter gravado isso tudo - Escuta 3 - Parte 2

 

Relato abaixo uma escuta real (autorizada) no qual tento permanecer curioso e investigativo COM a pessoa sobre o que está vivo dentro DELA. Não é encorajar, analisar ou aconselhar. Em itálico, você encontrará os sentimentos e as respectivas necessidades a que eles tentam responder.


A escuta estava intensa depois daqueles minutos passados. Agora, ela tinha falado sobre o trabalho ser um vício. Aquilo me pegou de algum jeito, mas não era a hora de pensar em mim. Voltei para a escuta.

Fui logo arriscando um sentimento e uma necessidade.

— Ficou aflita por ter se dado conta de algo que não esteja 100% no seu controle?

— Sim. Eu gosto muito de controlar. E mais aflita por ver um vício. E esse vício é meu trabalho? E eu sempre achei que isso não importava. Que era "só trabalho".

— Existe uma relação com esse lugar hoje e vc gostaria de ter mais consciência do que vc está cuidando quando pensa no seu trabalho?

—Eu sei do que eu quero cuidar estando lá.  E isso é frustrante porque faz tempo que sei. Gosto da estabilidade, do status, da ideia de progresso que uma empresa pode me dar. Essa de "uma funcionária crescendo." Lá me proporciona tudo isso mas parece que deixou de valer a pena.

— Lá você sabe que cuida de algumas coisas como segurança e crescimento. Mas você fica vendo, nesse momento, o que a empresa não cuida?

— Sim. — ela, então, fica em silêncio por um tempo do outro lado da câmera.

Quando ela voltou a olhar, eu quis resumir um pouco o que tinha ouvido até ali com algumas hipóteses.

— Fica frustrada porque gostaria de ter visto mais progresso e aprendizado do seu lado? Sobre o que está, ou não está, valendo a pena?

— Sim. Também. Mas o que me pega é a vivência. Tudo o que vivi ali parece que — ela para de falar e volta logo depois — vivi. Parece que já vivi o que tinha que viver lá.

Com essa pausa, algumas necessidades me vieram em mente.

— Quer mais expansão, evolução, significado?

— "Significado" acho que não.

— Era só um chute mesmo. Existe uma satisfação em você de que uma maturidade foi alcançada nesse espaço mas parece que agora outras coisas surgem? — tentei voltar um passo e resumir o que tinha ouvido.

Ela então completa com algo que eu nem tinha imaginado.

— Saúde, por exemplo.

Me surpreendo quando algo assim surge numa escuta.  Amo essa "caça ao tesouro" por esses anseios e desejos. E quando damos espaço, coisas que estavam enterradas são faladas, assim, de supetão. Fico perplexo com o descobrimento de vontades que "nada" tem a ver com um relacionamento difícil com o chefe, por exemplo.

Voltei para a escuta.

— Saúde? — chequei.

— Sim.
— Você gostaria de mais clareza em como trazer um autocuidado maior?

— Não queria ser viciada nisso. Eu não quero ficar viciada num lugar. — ela voltou a se conectar com o que chamou de vício e me pareceu assustada ali na tela.

Paramos um pouco e percebi que poderia ser interessante mais um chute.

— Você se dá conta que sua permanência cuida de algumas coisas mas outras coisas você quer expandir e evoluir. E essa instabilidade te dá medo? Seria bom contar com mais apoio agora?
— Não me sinto com medo. — Ela olhou firme para mim. — É mais insegurança com essa instabilidade toda. E essa de "apoio": eu não quero apoio. Quero independência.

Pra mim foi surpreendente e incrível perceber que por grande parte da escuta ela estava bastante dentro dela e agora, verificava, o que para ela era verdade no que eu estava falando.

Deu os nomes para os sentimentos e necessidades que eram reais para ela. Mais uma vez, percebi que quem escuta nem sempre está correto. Mas por errar, abre espaço para o acerto de quem mais importa: quem está sendo ouvido.

Me senti naquele momento que nossa conexão estava bem alta.

— Seria bom manter sua autonomia? Você gostaria de mais força e amor próprio pra continuar nesse caminho?

— E coragem. — ela estava falando com o coração.

— Quer mais força e coragem pra cuidar dos passos em direção à sua evolução e sua expansão?

— Sem dúvida. Mas confiança é uma das coisas que mais me falta. Não sei ainda o que eu tenho a oferecer para outros lugares. — parou mais uma vez e completou. — E também não sei se quero oferecer o que tenho.

— Você está confusa sobre as habilidades que tem a oferecer para outros potenciais lugares? E ao mesmo tempo fica pensativa se essas habilidades atuais estão alinhadas com sua necessidade de expansão?

— 100% isso. — disparou com firmeza mais uma vez. — E eu estou bem atenta ao que venho sentindo nas entrevistas com novos lugares.

Naquele momento, perdi um pouco a atenção porque pensei que ela estava parada, sem buscar oportunidades. Mas um movimento já existia por parte dela. Internamente, comemorei. E voltei a escutar.

— Quando me perguntam "como é pra você ser da área comercial?", nessas horas eu me boicoto. Eu não estou conseguindo mentir. Não sei se gosto disso ainda. Daí fica difícil falar que gosto.
— Você está aversa às oportunidades que não estão sintonizadas com quem você quer se tornar? — me parecia que era isso que ela dizia.

— Isso mesmo. — ela confirmou.

Um barulho me incomodou naquele momento.

Era o timer da conversa.

— Ah, acabou nosso tempo. — falei meio desanimado. E logo depois, por dentro, celebrei o quanto a conexão pode expandir a noção de tempo. Esses dez minutos não foram apenas dez minutos.

Parecia que estávamos correndo em direção a algum lugar. Nosso vínculo estava forte e eu, sem perceber, estava muito curioso. Mesmo tendo feito vários chutes que pareciam não fazer sentido, fomos juntos encontrando um caminho. E com a sensação de uma mata cada vez mais baixa, parecia que estávamos vendo uma praia naquele horizonte de dentro.

— Ah, Emygdio. Eu deveria ter gravado isso tudo.


FIM DA ESCUTA


Como foi pra mim?

O que escutei em mim fazendo essa escuta?

A segunda parte dessa escuta me deixou muito inspirado pela abertura, encontro e conexão.

Me inspirou muito a clareza dela quando me disse do que mais gostava no trabalho. Ou seja, quais eram as coisas que esse lugar "horrível" proporcionava.

Somente com essa clareza, na minha opinião, fica mais fácil se libertar de uma história aprisionante. Ou ainda, de tirar esse peso do símbolo "trabalho".

Se ouvir pode nos indicar que existem necessidades que não estão sendo satisfeitas. E dar mais clareza para as estratégias que usamos para cuidar delas.

O trabalho pode conter inúmeras estratégias de satisfação de outras inúmeras necessidades. Somente com esse discernimento podemos ter mais certeza sobre a hora de mudar.

Novas preferências podem surgir e o que funcionava antes, deixa de funcionar. Pode ser que outro lugar seja melhor para acomodar essas preferências que surgem.

Novos conteúdos muitas vezes exigem novas formas.

Ela trouxe para a luz a ideia de que tem muita coisa sendo cuidada ali. Como crescimento, segurança, entre outras. Agora, me parece, que ela ganha mais força para poder escolher um novo trabalho mas sem aquela intensidade de que "quero mudar tudo na minha vida" ou "que nada presta".

Olhando pra mim, percebo que sou "pós-graduado" em criar essas histórias dramáticas de mudança pessoal.

É claro que há situações que precisam de uma mudança brusca. Mas em outras, eu percebo que me contar esse tipo de história tem um efeito contrário. A tendência é me paralisar, já que tenho que mudar TUDO.

O que pode acontecer se eu focar APENAS no próximo passo? Ou nas estratégias práticas para cuidar de necessidades específicas? Pode ser que eu queira mudar de trabalho. Pode ser que eu queira mudar de área. Pode ser que eu perceba que nenhuma dessas mudanças vai realmente cuidar do que precisa de atenção em mim.

Me senti muito desafiado.

Talvez seja melhor pensar menos em mudanças abruptas, e mais em CULTIVO de alternativas. Me parece um caminho mais saudável, natural e humano.

E as provocações não pararam por aí.

Na sequência, fiquei muito pensativo quando ela fez questão de diferenciar a necessidade de apoio e independência.

Com todos aqueles questionamentos e instabilidades dentro dela, o "óbvio" é que, por trás disso, estava um pedido de socorro. Mas, nada na escuta é "óbvio". Ela queria mesmo é evoluir num sentido próprio de auto-apoio.

Me peguei pensando, mais uma vez, o quanto aprendo sobre mim nessas escutas. Era só uma hipótese, e mais uma vez, a necessidade de autonomia e poder de escolha me surpreenderam.

No meu cotidiano, quantas vezes penso que alguém, na verdade, está precisando ter seu senso de autonomia resgatado? Às vezes, uma "mão amiga" desconectada de uma real necessidade pode atrapalhar. Eu quase nunca penso nisso. Se acho que estou presenciando uma dor, já vou logo tirando conclusões, ou melhor, agindo por meios dessas conclusões.

A escuta volta a ser para mim um espaço de crescimento. Por meio dela, posso ter mais clareza desses detalhes que fazem toda a diferença.

Continuando pelo caminho, ela chegou num ponto curiosíssimo. Descobriu que estava buscando um trabalho que no fundo não queria. Voltou a olhar para si e se perguntar: Espera, quais são as oportunidades sintonizadas com o que quero de verdade?

Vi em mim a busca constante por respostas programadas, automáticas e culturais para várias das minhas vontades. Quando quero evolução, expansão e dinamismo na minha vida, quais são as fontes as quais recorro? Quando alguém e algum lugar não me dão o que quero é quase automático um "trocar". Não tenho nenhum problema com isso. Minha questão é: trocar por iguais? Pelas mesmas opções e estratégias? Só mudando a embalagem?

Não sei você, mas eu consigo ver alguns desses círculos na minha vida. Parece que algumas estratégias se repetem. Eu mudo pra perceber que no final nada mudou.

Diferenciar sentimentos, necessidades e estratégias vem fazendo toda a diferença na minha vida. E a escuta vem cultivando esse olhar.

Por exemplo, se quero mais dinamismo, posso pensar: em quais lugares consigo exercitar ou cultivar esse desejo? Será que não estou exigindo demais dessa relação ou lugar? Será que posso acomodar novas estratégias sem excluir as antigas?

Ter mais clareza das necessidades parece fazer com que eu busque novas opções. Vou ampliando meu leque e fugindo da ideia de que "a vida é assim e não tem saída".

Essa jornada é grandiosa e me sinto apenas no começo dela.

Por último, fiquei fascinado com as camadas a que tivemos acesso. E ela, ciente da caminhada, naturalmente me pediu um mapa da nossa trilha ou, nas palavras dela, uma gravação da escuta. Como se perguntasse: Por onde entramos? Quais atalhos pegamos? Onde giramos em círculos? Como foi que chegamos ali? Para onde esse caminho vai?

Revisitar esse mapa algumas vezes pode ajudar, mas sinceramente acho que só o território vai dizer.

O terreno pelo visto é acidentado.

Qual será o pequeno próximo passo adiante?


Como foi pra você?

E você? Como se sentiu lendo esse experimento? Te nutriu em algo que você valoriza ou vem buscando? Acha também que contribuiu para desenvolver mais sua habilidade de escuta? Você ouviu algo que não ouvi? Vou adorar saber nos comentários.


O Na Escuta é um experimento humano na busca pela conexão perdida. Treinaremos uma arte esquecida que pode ser tão fundamental nos tempos atuais: a escuta.

Como um aprendiz dessa arte, documentarei em diversos formatos a minha jornada e de outras pessoas por esse caminho.

Meu sonho com esse projeto é dar acesso, a cada vez mais gente, à prática de escuta.

Acredito que todo mundo nasceu com essa capacidade. Só falta treino.

Os experimentos consistem em práticas de 10 minutos nos quais fazemos algo simples: ouvir, por trás das palavras, quais são os sentimentos e anseios presentes ali. É isso que chamo de ouvir de verdade.


Lembre-se, a escuta é algo que se aprende fazendo. Todos os conteúdos do Na Escuta tem o objetivo de engajar e dar um gosto dos mistérios desse caminhar.