Eu só quero ir embora daqui - Escuta 3 - Parte 1

 

Nesse experimento, escolhi dividir o texto em duas partes. A seguir, você lerá os primeiros cinco minutos da escuta, os sentimentos e anseios encontrados por nós, e o que ouvi em mim logo depois. Dessa forma, quis honrar a confiança dela por ter ido tão longe comigo. E, claro, aproveitar a beleza do caminho.


Relato abaixo um experimento real de escuta (autorizada) no qual tento permanecer curioso e investigativo COM a pessoa sobre o que está vivo dentro DELA. Não é encorajar, analisar ou aconselhar. Em itálico, você encontrará os sentimentos e as respectivas necessidades a que eles tentam responder.


Eu tinha combinado às nove da noite e já estava atrasado. Cheguei correndo em casa vindo de outro compromisso. Isso não é bom sinal pra mim quando vou fazer uma escuta. Sentar tranquilo pra ficar presente antes de ouvir é bem básico. Pra mim, pelo menos. Já tinha feito outras vezes na correria e até eu realmente "chegar" na escuta, parecia que havia perdido partes importantes.

Mesmo assim, tomei uma água, peguei umas amêndoas que estavam em cima da mesa da cozinha. Comi. E fui me preparando pra ouvir. Sentei, liguei o computador e percebi que no WhatsApp já estava um "quando você puder".

Já acessei o link e um sorriso apareceu dizendo "oi".

Eu parecia esbaforido e pela câmera do laptop pude ver que meu cabelo estava todo desarrumado.

— E aí? Corrido? - ela me perguntou.

— Cheguei da rua agora. Foi mal pela demora. - podia ter ficado em silêncio e meu cabelo falaria por mim.

 Com um sorriso de "tudo bem", ela me recepcionou e me deixou à vontade.

— Vamos começar nosso exercício? Vou contar dez minutos, tá?

— Beleza. - disse um pouco energizada.

— Como você está?

 E ela, naquele instante já colocou a mão no rosto.

 — Ai Emygdio, muito doido. Parei de me preocupar em ficar chamando as pessoas pra fazerem coisas, pra serem minhas companhias... Relaxei. E parece que as coisas inverteram! Meus amigos foram se aproximando sem eu pedir e me preenchendo de várias formas. 

— Você se sentiu amparada?

— Total. As pessoas nem sabem que não estou bem no trabalho, mas elas acabam ajudando sem saber.

 — Amparada e renovada porque esse senso de comunidade é importante pra você?

— Exatamente isso.

 — Você celebra naturalidade desse companheirismo?

 — Isso é tão bom e eu nem sabia que tinha.

Um lugar de respiro aconteceu naturalmente ali. Gostei de perceber que ela comemorou e deu um suspiro depois. Como se respirasse esse ar que faz bem pra ela.

Eu respirei. Estava bem presente naquele momento. Aquele ar estava fazendo bem pra mim também.

Ela retoma com algo que tinha dito anteriormente de passagem, sobre o trabalho.

— Com meu chefe é o contrário. Como é difícil a convivência com ele. Não consigo ler quem ele é. Me paralisa.

Ela, então ficou um tempo em silêncio. Eu fiquei meio ansioso e quis fazer um chute do que estava acontecendo dentro dela.

— Você gostaria de saber mais o que ele tenta cuidar pelas ações dele? - mas não acertei. Mesmo assim, como em toda escuta, a pessoa em foco segue seu caminho e a pergunta é, ao mesmo tempo, um impulso e algo que fica para trás logo depois.

— Eu não vou fundo nessa relação. 

 — Você se sente saturada pensando nessa relação? E gostaria de regenerá-la?

— Estou saturada. Não estou com foco em regenerar, não.  Estou supersaturada. Tipo, agora nem estou mais afim de ir fundo mesmo. Já estou pensando na melhor forma de romper a relação.

Com cara de desânimo, vira o rosto e fica pensando, olhando para o chão.

— Supersaturada. Ele até vai almoçar comigo nos próximos dias. E vou me preparar para abrir o coração.

Engatou, assim, em outra linha de pensamento. Ela estava realmente investigando esse território dentro dela. Já eu, estava ali como coadjuvante mesmo. Eu tinha tantas coisas pra perguntar. Sem contar os conselhos que já estavam pipocando na minha cabeça. Mas na escuta, a gente escuta.

— Daí aconteceu outra coisa que deixa tudo bem e nada bem. Chegou um caso de um cliente enorme pra mim. Me esforcei muito pra algo assim chegar e agora tem essa chance que pode mostrar que todo o esforço valeu a pena.

— Você fica satisfeita por esse progresso?

— Sim. Mas também preocupada porque isso vai me prender mais onde não quero. E daí vou continuar nessa merda.

— Vê se foi isso que você me disse: Você se sente feliz e reconhecida quando esse negócio aparece? E receosa quando percebe que isso pode reforçar uma permanência num estado de coisas que não te cuida?

 Ela estava bem pensativa e continuou sem validar minha hipótese.

 — Na verdade, isso pode me dar o fôlego de pensar no que quero daqui em diante. Estou com esperança e medo. Esperança e medo. Esperança e medo. Meu deus.

— Você tem vontade de ter mais clareza discernimento para priorizar suas necessidades agora?

 Então ela começou a listar suas preocupações e ânsias. Acho que foi um "sim" para a pergunta que eu tinha feito.

— Eu tenho clareza que o rompimento pode me deixar ainda pior. Daí ficarei bem desamparada. Se demorar para algo acontecer. Posso continuar a estar ali, fazer o básico e fazer o que fiz meses atrás. O que é difícil é saber quais são as outras necessidades.

— Você gostaria de ter um leque maior de opções para ter mais tranquilidade?

 — Sim. Eu preciso desenhar essas possibilidades.

— Você se dá conta que tem recursos já em mãos para fazer esse leque?

 — Sim. Na verdade, desde a semana passada me pedi calma porque tenho recursos.

— Você fica serena e tranquila?

— Bem pouquinho. Na verdade, estou ansiosa.

— Ansiosa porque não sabe as opções para seu próximo passo no movimento de saída?

— Sim. E estou demorando mais tempo para tomar uma decisão como essa. Sem contar que esse trabalho me parece um vício mesmo. - dá um grande gargalhada e continua. - Não quero que seja. Que coisa doentia. E foi isso que me fez explodir na última semana.

 

FIM DA PARTE 1


Como foi pra mim?

O que escutei em mim fazendo essa escuta?

Essa escuta para mim foi desafiadora e saborosa. São muitos detalhes. Idas e vindas. Introspecção e auto-observação.

Tudo ali me remeteu ao final numa grande geografia interna. É muito fascinante os morros e vales, os rios e riachos, os caminhos familiares e as trilhas com matos altos dentro da gente.

Especialmente venho apreciando os momentos de brisa nessa geografia. Sendo prático, me refiro aos momentos de suspiros. Parece mesmo que respiramos um ar com o aroma do que acabamos de dizer quando inspiramos nessas horas. É bom falar, deixar esse ar sair, nomear sentimentos e desejos, e dar um tempo para depois inspirar uma nova compreensão.

"Sou grato pelas pessoas que demonstram esse carinho por mim. Me faz tão bem ser cuidado. " - Não sei você, mas essa frase, quando verdadeira, me faz querer respirar fundo.

Gosto desse simbolismo da fala com a respiração. 

No fundo, estamos respirando enquanto falamos. Esse expirar e inspirar vai criando nosso ambiente, vai preenchendo o ar a nossa volta. Me faz acreditar ainda mais no poder das palavras e como isso pode criar um ar libertador. Um ar fresco de brisa dentro da gente.

Outro ponto que ficou vivo em mim foi que, em dado momento, eu estava "chutando" sentimentos e necessidades, e parece que ela não estava me ouvindo. Ela não estava interessada ainda nos meus "chutes". Ela, na verdade, estava profundamente ouvindo ao que ela mesma dizia. E eu, simplesmente, estava ali sustentando um espaço e um tempo de fala.

Isso foi tão importante. Eu fiquei tão feliz de ter percebido isso. 

Naquele momento, independente de uma hipótese correta ou não, ela estava se ouvindo. Parecia que ainda não era o momento de dar nome às coisas. Era como se ela estivesse andando por um caminho, vendo as pedras no chão e sentindo a grama alta passar pela palma da mão.

Perceber isso me deixou realizado. Esse companheirismo e foco, essa confiança e presença foram incríveis de experimentar.

Outro ponto que ressalto foi a questão da negociação com o grande cliente e como aquilo poderia prender ela nesse lugar.

Esse exemplo que ela me contou, ressoa profundamente em mim. 

Quantas vezes escolho distrações, com ótimas histórias para justificá-las, para não me ouvir e saber que não quero continuar a fazer algo.

E quando não quero tomar uma decisão daquilo que já sei que quero, uso esse tipo de história para me esconder. "Que pena de mim. Agora que sei que não quero isso, vem uma ótima notícia dessa. Terei que ficar por mais um ano por aqui. Ai, como estou preso." - e por aí vai. Essa auto piedade é um enorme desafio.

Ela estava em pura modo auto-observação pra checar dentro dela se aquilo era uma oportunidade ou não. Me dá vontade de estar com essa destreza em vários momentos.

Por último, nessa primeira parte da escuta, ela citou a possibilidade de um vício no trabalho. Quanta coragem pra olhar as coisas assim.

Um vício me parece ser algo que está fora da consciência e que se repete por causar um prazer momentâneo que me afasta de algo que considero perigoso e que me dá medo. Ou, em outras palavras, algo que me amortece de algumas dores de crescimento.

Será que tenho vícios escondidos no meu cotidiano? Coisas que cuidam para que eu não experimente uma dor repentina por finalmente enxergar algo que preciso mudar pra viver com mais amplitude? Após essa escuta, me senti desafiado a olhar com outros olhos para algumas coisas.

E por essa geografia de dentro, respirando novos ares, sustentando espaços de fala e tentando entender as histórias que me conto, vou caminhando por esse território que ela me convidou a andar com ela.

 E essa só foi a primeira parte.


Como foi pra você?

E você? Como se sentiu lendo esse experimento? Te nutriu em algo que você valoriza ou vem buscando? Acha também que contribuiu para desenvolver mais sua habilidade de escuta? Você ouviu algo que não ouvi? Vou adorar saber nos comentários.


O Na Escuta é um experimento humano na busca pela conexão perdida. Treinaremos uma arte esquecida que pode ser tão fundamental nos tempos atuais: a escuta.

Como um aprendiz dessa arte, documentarei em diversos formatos a minha jornada e de outras pessoas por esse caminho.

Meu sonho com esse projeto é dar acesso, a cada vez mais gente, à prática de escuta.

Acredito que todo mundo nasceu com essa capacidade. É só falta de treino.

Os experimentos consistem em práticas de 10 minutos nos quais fazemos algo simples. Ouvir, por trás das palavras, quais são os sentimentos e anseios presentes ali. É isso que chamo de ouvir de verdade.
Lembre-se, a escuta é algo que se aprende fazendo. Todos os conteúdos do Na Escuta tem o objetivo de engajar e dar um gosto dos mistérios desse caminhar.